quarta-feira, 4 de março de 2009

Ódio

nojo
do intermásculo beijo
do feminismo chato
do cantor barato
da frívola fêmea plana
de negros odores densos
da risada cínica atéia
do tostão, na mão hebréia

nojo
destas mãos deformadas toscas
desta voz desta pele
deste monstro, informe e bruto
que habita, um espelho escuro

Caçarola

ao inferno
este caldeirão maldito
cozinhe, natimortas almas
ferva idiotas falas

desprezo seu verde musgo caldo
suas bolhas, de ossaturas fracas
não passa, de insossa água
evaporará, e não sobrará gota

Anticristo



Zandre, "O demônio enamorado"


nas esquinas
numerosas ruas
diversas casas
esquecidas plagas

ali está
enxerga
não visto
fala, estão surdos
à distância
pois correm

é ele
o inimigo, o demo
o belzebu, o lúcifer

indiretos nomes
que dele não fogem
o pé-preto, o rabudo,
o tinhoso, o chifrudo,
o canhoto, o diacho

mas este odiado
em sua roupa surrada
hálito satânico etílico
demoníaco terrível fedor
a pedir esmolas
aos olhos pios
o coisa ruim
é sua única esperança
seu pobre diabo

terça-feira, 3 de março de 2009

Posse



" a dama com chapéu preto e seu cão"


quem de um cão é dono
é também, um canino artefato
nos objetos possuídos
recolhe, sentimentos em garrafas
destila, em olhares frias taças
persegue, etéreas ondas de matéria

corre, não olha
o tempo passa
não vê, a montanha cresce
se perdem controles
olha mais tarde
se espanta, é pouco
que cresça, que viva
que ande, que fale

na hora iminente
o volume tarda
não há espaço
não há saída
ou há saída
mas deixa a outro

a fortuna espera
outro final começa
a aposta lançada
doutro desfecho a promessa

Trincheira

Na cidade universo
dizem vozes panteísta
humanista voa o verbo
batem pinos quadraturas

linhas traçam muitos credos
face que emerge numa língua
e volta a espada ao lingote
o demo, o anjo, franca arte

mas onde soa a cornucópia
o cristo livre e seu rebanho
enfrenta tolo seu invento
o demo, o plano, o cinzento

o repetido monocórido insensato
difunde um evangelho refutado
maquinismo vergastado pelos gritos
sob a égide do livro apagado

acima do mártir artefato
há nuvens pouco-fato
permanece a galáxia escondida
já vista e jamais perdida

Singularidade

o centro destes olhos
é vórtice dobrado
gravidade negativa
repulsão agregativa

dali, fonte emanam
tristes súplicas pungentes
doidas alegrias aparentes

também
sugam sangue fresco
se inundam
do terrível e grotesco

impossível controlados
seguem vivos à vontade
evitam partes e metades
tolos buscam a verdade

Norma

a chuva cai
observa a regra
e vai

assim,
como a pedra,
a árvore,
o sol e a lua

mais longe
no vazio imaginado
não brilha a luz
nem som ecoa
a régua falha
e a arte brota