sábado, 26 de março de 2011

Pofissão ou fé

para Cris e Léo

somos matemáticos
cientistas
intelectuais
artistas e malditos

somos fracasso
fiasco
desastre
esperança e desdita

seremos vontade
retratos
exemplos
mártires ou párias

fomos crianças
indóceis
ingênuas
serenas e perversas

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Reencarnação

pedra

quadrada

fechada

na cripta

espera

coitada

de novo

a ida

a vida

as dores

da vinda

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Mecânica

frase lida
estica a corda
soa o gongo
gira a roda
toca o bumbo
desce a tora
corre o rato
espreita o gato
queima a tocha
quebrou-se o prato
cavalo corrido
cão latido
na agulha a bala
disparo agora

Granja

tive uma fazenda
com tomates azulados
e batatas engasgadas

violentos peixes então criados
porcos remelentos bem cevados
carneiros delinquentes adestrados

mas, morreram secos todos
e nada há nisto de fantástico
sempre morde a cobra o próprio rabo

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Quebra

as coisas que mudam
a aula
o banho canino
a avó no asilo

manicure no sábado
cansaço na sexta
estudo na terça
nova que chega
trabalho infindo

coisas de novo
mesmas de sempre
festa querida
sacola devida
nunca chega
o descanso querido

coisas intactas
agora mudadas
não voltam
ficaram
para sempre
para nada

Volta

não olhe
não goste
nem fale
não falta

outra face
de lata
mal-reflete
fracassa

não preciso
não ria
é melhor
calada

outra vez
que seja
o destino
enseja

Poder

"onde há poder, há resistência",
Marcel Foucault
a existência do poder
sua mecânica seu saber
a resistência em querer
sua corrosão seu fazer

a inexistência do haver
sua estática seu viver
a insistência em não mover
apaga o sol e faz chover

onde há força há poder
onde há fogo, perecer
se no inferno não há morrer
no paraíso não há ser

Reinado

da morte o rei ninguém queria
criam no eterno sempre que haveria
de volta ao ponto do início
memória de passado fictício

mas de volta o pretérito não viria
hoje é tudo que havia
do momento a falha é presente
da memória o inimigo é o existente

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Progresso

levanto os olhos
enxergo longe
vejo o novo
percorro o todo

não perco tempo
não sinto o vento
faz parte o erro
repito o mesmo

mas deixo um mapa
de escoras férreas
estacas pétreas
e devastadas terras

Caricatura

mão que voa sobre a folha
gasta o negro e rasga o branco
pinta o rosto e nasce a face
vibra o olho e ofusca a sombra

ao fim da obra desce a tarde
falta a luz e corre o sonho
o homem olha o rabisco louco
perversos olhos e boca torta

cabelos crespos e áureas órbitas
desdenha a mão das cores fáceis
fulge o tino da saliva fonte
toma o corpo malas formas

pernas curvas braços fortes
o terror percorre a branca fonte
sua frio e sobe a tosse
no desenho tosco inventado
se vê tão clara a própria face

Auto-invenção

para Vinícius de Morais

filosofia de mesa
de tiragosto bebedeira
verdade líquida e cansada
é velha e carcomida palavra

da fala sem ato
de volta ao começo
de novo na mesma
no amigo marasmo

alturas etílicas
profundezas de sono
os olhos desejam
os toques de sempre

do barro que veio
ao pó retornou
ilusão de ter sido
mais do nada que foi

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Maldição

em cada antro arde a vela
na terra-carne corre a lâmina
gritos toscos abafados
pobres sombras na caverna

em cada palco brilha o astro
em trevas- sala efêmera arte
falas textos decorados
mãos escuras os governa

em cada trincheira fenece o pobre
bombas mortes registradas
lágrimas, cruzes e lanternas
sinais de festa na caserna

em cada igreja some o homem
no púlpito-livro-prato jazem trevas
círios, santos, faunos, divindades
infindas fontes de paz etena

Profecia

de sorte em sorte
em forma, de bálsamo
em vida, na morte
perdida desdita
de cores malditas
explode em formas, em curvas
em sonhos, em brumas

reflete a esmo
torna e cresce
perde e corre
de chances, delírios, revoltas

do tempo ao centro não foge
retorna de costas
ao contrário do horário
não pode, não força, não fala
só ouve a ordem

Visões do Paraíso

I.
casebres na taba
são palhas de palma
palácios da selva
presente celeste


II.
pescarias egípcias
soldados de Roma
lavouras assírias
a queda de Tróia


III.
pinturas rupestres
no céu da caverna
prenúncio sinistro
do teto Sistino

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A Lagarta

come verme a polpa, a fruta, a carne, a força e cresce, e sobe, e desce, engrossa, entumesce. O destrutivo rastro, grotescas formas de um labirinto percurso que corre ao externo, ao sol, aos ares, ao vôo derradeiro, ao sempre, ao nunca, ao astro, ao bico do pássaro.

Diversidade

aperta, refresca
levanta, se espanta
eleva, reforça
fala, se inventa
quantas pessoas no mundo
existem iguais a você?

corrida para o lado
para cima para baixo
reforma de tudo
retorno de novo
quantas fazeres no mundo
existem iguais a você?

contralto, agudo
rerime, confessa
revolta, ao ponto
calmaria, confronto
quantos diferentes no mundo
existem iguais a você?

a cidade, o campo
a bola, o riso
recorre e espera
não teme, se altera
quantos de novo no mundo
existem iguais a você?

aumento, tormento
subida, ao centro
saída, não vemos
masmorra, sem ventos
quantos infernos no paraíso
existem iguais a você?

camada, fechada
derrama de leites
compressa de sangue
conquista, aos berros
quantos haveres no mundo
existem iguais a você?

imprime, na carne
satura, perfura
deforma, inventa
não foge, enfrenta
quantos mundos diferentes
existem iguais a você?

Mapa

no fim desta rua
existe uma loja, e lá
se compra a prazo
se vende fiado
se come barato

do lado
não suba a escada
nem desça apressado
corre o boato
impostos devidos
favores roubados

mas siga direto
à porta por perto
pergunte ao velho
agradeça ao cego

agora na praça
não corra da chuva
se abrigue na fonte
verá a saída

a lua o horizonte
a face do mar
o porto aberto
não há como errar

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Burro é quem vota

Agora tenho um novo blog, este para assuntos políticos. O endereço é

www.burrovotaburro.blogspot.com

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Verbo

no princípio
eram ouvidos
eram gritos
eram vidas

de tempos em tempos
de pontos a outros
corridas informes
visões de vitrine

ao fim do dia
no início da porta
aberta em dores rebeldias
ouço graves verdes óculos

treme firme e soa a frase
voa o certo e nada o quase
eis-te agora preparado
adeus silêncio, agora fale

Torpor

amarelo iluminado
logo chega o barato
riso cria incontido
doida fala invertida

mas dura a pedra rompe o vidro
é fraco o domo em pedaços
doidos correm os escravos
soberanos de um mundo arruinado

insensível à loucura
segue dura a rocha funda
esquecida noutra parte
eis o barato da verdade